
VOCAÇÕES: DOM E TAREFA
Rio de Janeiro, 01 de outubro de 2007
De nada valerão os documentos, disposições e orientações que a próxima Congregação Geral possa elaborar se não houver jesuítas para vivê-los e levá-los à prática. Por esse motivo, a Comissão Preparatória da CG 35 considerou conveniente propor aos futuros congregados a inclusão do tema da promoção de vocações na agenda do encontro. No contexto de sua preparação, aproxima-se a data de 5 de novembro, festa de todos os Santos e beatos da Companhia do Jesus e dia estabelecido pela CPAL como Jornada de Oração pelas Vocações para a Companhia, que chega este ano a sua sexta edição.
Trata-se, portanto, de orar e promover a vocação, porque o dom e a tarefa sempre andam juntos. “A Deus rogando e com o malho dando”, como reza o dito. Oramos a Deus, pois tudo depende Dele e, ao mesmo tempo, fazemos nossa parte como se tudo dependesse de nós. O Padre Geral, ao nos visitar em nossa sede o ano passado, disse-nos que “na América Latina ainda não se faz o que se deve em relação às vocações”, solicitando-nos um maior empenho. Com efeito, este continente, em contraste com outros lugares, tem ainda muito que oferecer neste sentido.
Devemos reconhecer que avançamos. Todas as Províncias têm seu coordenador de vocações [embora não sempre a tempo pleno] e em muitas delas se trabalha em equipe, tratando de ativar novas experiências com jovens e articular esforços entre elas. O “Manual de Pastoral Vocacional da Companhia do Jesus para a AL”, publicado o ano passado pela CPAL, vai sendo utilizado cada vez mais como um bom instrumento inspirador para estas tarefas. Aumentou também o número de casas para realizar a fase da candidatura, o que permite um mútuo e maior conhecimento prévio ao noviciado. Tudo isso produz frutos: mais de 100 jovens se encontram este ano no plano de candidatos ao noviciado, alguns dos quais foram admitidos recentemente [12 no México e outros 10 na América Central]. A CONPAV [Comissão Nacional de Pastoral Vocacional do Brasil] prepara um curso sobre Pastoral Vocacional para capacitar melhor nesta missão aos jesuítas em formação, nesta tarefa que incumbe a todos nós.
Apesar disso, os frutos alcançados são menores dos que esperamos. Recebemos muito mais do que merecemos [demonstração da graça de Deus conosco], mas muito menos do que a missão encomendada requer. Por isso, a Comissão Preparatória da G 35 propõe este tema não só na respectiva relação prévia, mas também ao falar da missão: “Esta missão –nosso desejo de servir ao Senhor e à Igreja no serviço da fé integrada ao serviço da justiça, cultura e diálogo interreligioso- é crítica para nosso mundo e para a Companhia do Jesus. Ao levar a Boa Nova de Jesus Cristo ao mundo, cumprimos o desejo de S. Inácio de salvar almas. Ao nos entregar mais profundamente a esta missão, redescobrimos nosso próprio chamado e identidade como amigos no Senhor. Esta é nossa vocação e esta missão exige que levemos a sério o trabalho da promoção vocacional. Sem ele, a missão da Companhia está em risco”.
A Comissão Preparatória vincula, pois, a promoção de vocações com temas tão chaves para nós como são a identidade do jesuíta, sua vocação e missão. Por esse motivo, a promoção de vocações não é, e não pode ser, tarefa de uns poucos, por mais capazes que eles sejam. É a identidade do corpo apostólico, expressa em seu modo de proceder na missão, que pode atrair jovens generosos a entregar-se a Cristo e ao serviço de outros fazendo “oblações de maior estima e valor” [EE 98]. Os 100 candidatos na América Latina, os 900 noviços da Companhia no mundo, a atração que exercem os novos movimentos, a vida contemplativa, o clero secular ou o laicato comprometido indicam que a generosidade juvenil não caiu em desuso. A resposta parece não estar nos jovens mas em nós. Daquilo que façamos ou deixemos de fazer depende nosso futuro. A CG 35 pode ser uma boa ocasião para fazer o devido exame.
Na alocução aos provinciais da CPAL em Santiago [abril, 2006], o Padre Geral nos dizia o seguinte: “de nada servem bons programas de promoção vocacional se, como jesuítas, não damos um testemunho coerente de vida religiosa e apostólica”. E a CG 34: “a qualidade de nossa vida dá uma imagem humana à chamada de Deus” [d. 10, 3].
Assim, pois, podemos utilizar estes textos para nos examinar, como promotores vocacionais que todos estamos chamados a ser: é verdade que a qualidade de minha vida dá uma imagem da chamada de Deus? Nossas relações com Deus, nossas comunidades e nossos ministérios apostólicos são o que professamos que sejam? Nossa oração continua sendo um segredo que guardamos para nós mesmos ou falamos de nossa experiência de Deus…? Nossas comunidades continuam sendo misteriosas para outros, exceto para nós, ou são de fato acolhedoras e abertas para quem nos busca? Os jovens vêm que trabalhamos em equipe…? Nosso zelo apostólico é contagioso ... ? [CG 34, d. 10].
A estas perguntas poderíamos acrescentar outras, tiradas da alocução do Padre Geral em Santiago do Chile: quantas vezes falei da vocação à Companhia no último ano? Tive a coragem de propor a algum jovem que seja meu companheiro neste caminho? Teríamos que perguntar-nos por que não vêm vocações de nossas obras. Será porque não fazemos a pergunta e não convidamos? Será por que não percebem em nós um testemunho autêntico e claro de ser homens que imitam a Jesus, trabalham com ele e estão dispostos a dar a vida por ele?
As perguntas que nos faz o Padre Geral não se referem só a nossa ação [ou inação] como promotores vocacionais. Também se estendem ao tipo de candidato que desejamos ter: Que jesuíta requer a missão da Companhia hoje ou também que candidato será capaz de prestar os serviços especializados que a Igreja pede de nós hoje? Com efeito, não se trata de incorporar “uma multidão”, mas os que são idôneos para os ministérios da Companhia, com “subiectum”. “Não basta aceitar as vocações que nos chegam”, nos disse o P. Kolvenbach. E acrescentou: “da qualidade de nossas vocações depende a qualidade de nosso serviço apostólico”.
Ainda há mais um ponto para o exame: nossa atitude. O Padre Geral nos adverte sobre algumas atitudes inadequadas: o desânimo [“já fizemos tudo o que podíamos, mas as vocações não chegam”], o ceticismo [“para que tanto esforço se logo mais eles saem”], o descuido [“se Deus os chama virão sozinhos”], a frustração [“está claro que não dou para isto”]. Quando nos assaltarem estas e outras tentações, convém voltar o olhar aos primeiros companheiros, quando visitaram sem êxito as universidades do norte italiano, ou a Inácio, incapaz de reunir companheiros em Alcalá, ou ao próprio Cristo, que também teve suas dificuldades neste ofício. O episódio do jovem rico é um estímulo para todos nós: devemos assumir que a proposta pode cair no vazio, mas nem por isso deixamos de fazê-la.
A proximidade da festa de todos os Santos e beatos da Companhia, no próximo 5 de novembro,,pode ser uma boa ocasião para renovar nossa oração e nossa ação pelas vocações. Sem dúvida, os encarregados em cada Província nos podem prover de material e de sugestões para orar e atuar. Antes, entretanto, convém fazer um bom exame, deixando-nos tocar pelo espírito de conversão, que nos anima neste período de preparação para a CG 35.
Para isso, pode ajudar-nos esta oração do Pe. Jerônimo Nadal, no ano do quinto centenário de seu nascimento:
Senhor Jesus, te pedimos que chames os que hás de chamar,
Que envies os que hás de enviar
para trabalhar pela Igreja em tua Companhia.
Nós somos inúteis,
mais do que podemos imaginar.
Por isso, cumpre, Senhor Jesus, o que tens disposto,
apesar de nós podermos impedi-lo e corrompê-lo,
com nossa debilidade e nossa ignorância,
com nossa negligência e nosso pecado.
Ernesto Cavassa, S.J.
Presidente da CPAL