DISCURSO DO PAPA BENTO XVI AOS JESUÍTAS
ARTIGOS - terça-feira, 26 de fevereiro de 2008 11:36 por Redação
Discurso do Papa Bento XVI aos participantes da C.G. 35
Roma, Sala Clementina, 21 de fevereiro de 2008
Caros Padres da Congregação Geral da Companhia de Jesus:
Agrada-me receber-vos neste dia, quando vossos trabalhos vão entrando em sua fase conclusiva. Agradeço ao novo Prepósito Geral, P. Adolfo Nicolás, por ter sido intérprete de vossos sentimentos e de vosso compromisso de responder às expectativas que a Igreja deposita em vós. Sobre estas falei-lhes na mensagem dirigida ao reverendo P. Kolvenbach e, por mediação dele, a toda a vossa Congregação, no início dos vossos trabalhos. Agradeço, uma vez mais, ao P. Peter-Hans Kolvenbach pelo valioso serviço de governo por ele prestado à vossa Ordem durante quase um quarto de século. Saúdo também os membros do novo Conselho Geral e os Assistentes que ajudarão o Prepósito em sua delicadíssima tarefa de guia religioso e apostólico de toda a vossa Companhia.
A vossa Congregação se realiza em um período de profundas mudanças sociais, econômicas, políticas; de urgentes problemas éticos, culturais e ambientais e de conflitos de todo tipo, mas também de comunicações mais intensas entre os povos, de novas possibilidades de conhecimento e diálogo, de profundas aspirações à paz. Trata-se de situações que constituem um desafio importante para a Igreja católica e para a sua capacidade de anunciar aos nossos contemporâneos a Palavra de esperança e de salvação. Espero, pois, ardentemente que toda a Companhia de Jesus, graças aos resultados da vossa Congregação, possa viver com impulso e ardor renovados a missão para a qual o Espírito a suscitou na Igreja e a conservou durante mais de quatro séculos e meio com extraordinária fecundidade de frutos apostólicos. Hoje desejo animar-vos e a vossos irmãos para que prossigais no caminho dessa missão, com plena fidelidade ao vosso carisma originário, no contexto eclesiástico e social próprio deste início de milênio. Como em várias ocasiões vos disseram meus antecessores, a Igreja tem necessidade de vós, conta convosco e continua confiando em vós, particularmente para alcançar aqueles lugares físicos ou espirituais aos quais outros não chegam ou encontram difícil fazê-lo. Ficaram gravadas em vosso coração aquelas palavras de Paulo VI: Onde quer que na Igreja, mesmo nos campos mais difíceis e da primeira linha, nas encruzilhadas ideológicas, nas trincheiras sociais, existiu ou existe conflito entre as prementes exigências do homem e a mensagem do Evangelho, aí estiveram e estão os jesuítas [Discurso à C.G.32 – 03/03/1975].
Como diz a fórmula do vosso instituto, a Companhia de Jesus está constituída antes de tudo «para a defesa e a propagação da fé». Numa época em que se abriam novos horizontes geográficos, os primeiros companheiros de Inácio colocaram-se à disposição do Papa precisamente para que «os empregasse no que julgasse ser de maior glória de Deus e proveito das almas» [Autobiografia, n. 85]. Assim foram enviados a anunciar o Senhor a povos e culturas que ainda não o conheciam. E o fizeram com uma valentia e um zelo que continuam servindo de inspiração e de exemplo até nossos dias: o nome de São Francisco Xavier é o mais famoso de todos, mas quantos outros poderíamos citar! Hoje os novos povos que não conhecem o Senhor - ou que o conhecem mal, até não saber reconhecê-lo como Salvador - estão mais afastados não tanto do ponto de visto geográfico quanto do cultural. Não são os mares ou as grandes distâncias os obstáculos que desafiam hoje os arautos do Evangelho, mas as fronteiras que, devido a uma visão errônea ou superficial de Deus e do homem, acabam elevando-se entre a fé e o saber humano, a fé e a ciência moderna, a fé e o compromisso pela justiça.
Por isso, a Igreja necessita com urgência pessoas de fé sólida e profunda, de cultura séria e de autêntica sensibilidade humana e social; necessita religiosos e sacerdotes que dediquem sua vida precisamente a permanecer nessas fronteiras, para testemunhar e ajudar a compreender que existe, em troca, uma harmonia profunda entre fé e razão, entre espírito evangélico, sede de justiça e empenho pela paz.
Só assim será possível dar a conhecer o verdadeiro rosto do Senhor a tantos homens para os quais hoje este permanece oculto ou irreconhecível. A isso deve dedicar-se, pois, preferentemente a Companhia de Jesus. Fiel à sua melhor tradição, deve continuar formando com grande esmero os seus membros na ciência e na virtude, sem conformar-se com a mediocridade, já que a tarefa do confronto e do diálogo com os mui diversos contextos sociais e culturais e as diferentes mentalidades do mundo atual se revela como uma das mais difíceis e laboriosas. E essa busca da qualidade e da solidez humana, espiritual e cultural, deverá caracterizar também toda a múltipla atividade formativa e educativa dos jesuítas, onde quer se encontrem, a favor dos mais diversos tipos de pessoas.
Ao longo de sua história, a Companhia de Jesus viveu experiências extraordinárias de anúncio e de encontro entre o Evangelho e as culturas do mundo: basta pensar em Matteo Ricci na China, em Roberto De Nobili na Índia ou nas ‘Reduções’ da América Latina. E disso vós estais justamente orgulhosos. Sinto hoje o dever de vos exortar a que sigais de novo os rastros de vossos antecessores com valentia e inteligência unidas, mas também com uma motivação de fé e paixão igualmente profunda com vistas ao serviço do Senhor e de sua Igreja. Mas enquanto procurais reconhecer os sinais da presença e da obra de Deus em qualquer lugar do mundo, inclusive além dos limites da Igreja visível; enquanto vos esforçais por construir pontes de compreensão e de diálogo com quem não pertence à Igreja ou encontrais dificuldades na hora de aceitar suas posições e mensagens, deveis ao mesmo tempo fazer-vos lealmente cargo do dever fundamental da Igreja de manter-se fiel a seu mandato de aderir totalmente à Palavra de Deus, assim como da missão do Magistério de conservar a verdade e a unidade da doutrina católica em sua completude. Isso vale não só para o empenho pessoal de cada jesuíta, pois ao operardes como membros de um corpo apostólico deveis também velar para que vossas obras e instituições conservem sempre uma identidade clara e explícita, de forma que o fim da vossa atividade apostólica não resulte ambíguo ou obscuro, e para que muitas outras pessoas possam compartilhar vossos ideais e unir-se a vós com eficiência e entusiasmo, colaborando com vossa dedicação ao serviço de Deus e do homem.
Como bem sabeis por terdes feito muitas vezes, sob a direção de Santo Inácio em seus Exercícios Espirituais, a meditação das ‘Duas Bandeiras’, o nosso mundo é teatro de uma batalha entre o bem e o mal, e nele atuam poderosas forças negativas que causam as dramáticas situações de submissão espiritual e material de nossos contemporâneos contra o que declarastes várias vezes querer lutar, comprometendo-vos no serviço da fé e na promoção da justiça. Tais forças se manifestam hoje de muitas maneiras, mas com especial evidência mediante tendências culturais que freqüentemente resultam dominantes, como o subjetivismo, o relativismo, o hedonismo, o materialismo prático. Por isso, pedi o vosso compromisso renovado na promoção e defesa da doutrina católica «em particular sobre pontos nevrálgicos hoje fortemente atacados pela cultura secular», alguns dos quais exemplifiquei em minha Carta antes aludida.
Os temas - hoje continuamente debatidos e postos em questão - da salvação de todos os homens em Cristo, da moral sexual, do matrimônio e da família, devem ser aprofundados e iluminados no contexto da realidade contemporânea, mas conservando a sintonia com o Magistério, necessária para impedir que se semeie confusão e desconcerto no Povo de Deus.
Sei e compreendo bem que se trata de um ponto particularmente sensível e árduo para vós e para vários irmãos vossos, sobretudo para os que se dedicam à pesquisa teológica, ao diálogo interreligioso e ao diálogo com as culturas contemporâneas. Precisamente por isso vos tenho convidado e também vos convido hoje a refletirdes para recuperar o sentido mais pleno desse vosso característico ‘quarto voto’ de obediência ao Sucessor de Pedro; um voto que não implica apenas na disposição para ser enviados a missionar em terras longínquas, mas também - segundo o mais genuíno espírito inaciano de ‘sentir com a Igreja e na Igreja’ – a ‘amar e servir’ o Vigário de Cristo na terra com uma devoção ‘efetiva e afetiva’ que faça de vós colaboradores seus tão valiosos como insubstituíveis em seu serviço à Igreja universal.
Ao mesmo tempo vos animo a continuar e renovar a vossa missão entre os pobres e com os pobres. Não faltam, infelizmente, novas causas de pobreza e de marginalização em um mundo marcado por graves desequilíbrios econômicos e ambientais; por processos de globalização regidos pelo egoísmo, mais que pela solidariedade; por conflitos armados, devastadores e absurdos. Como tive ocasião de reiterar aos bispos latino-americanos reunidos no santuário de Aparecida, a opção preferencial pelos pobres está implícita na fé cristológica naquele Deus que se fez pobre por nós, para nos enriquecer com sua pobreza [cf. 2Co 8, 9]. Daí resulta natural que quem quer ser verdadeiro companheiro de Jesus compartilha realmente o seu amor pelos pobres. A nossa opção pelos pobres não é ideológica, mas nasce do Evangelho. Inumeráveis e dramáticas são as situações de injustiça e pobreza no mundo atual, e se é necessário empenhar-se para compreender e combater as suas causas estruturais, é preciso também descer ao próprio coração do homem e aí combater as raízes profundas do mal, contra o pecado que o separa de Deus, sem se esquecer de responder às necessidades mais prementes no espírito da caridade de Cristo. Retomando e desenvolvendo umas das últimas e proféticas intuições do P. Arrupe, a vossa Companhia continua trabalhando meritoriamente no serviço aos refugiados, que são freqüentemente os mais pobres dos pobres e estão necessitados não só de auxílio material, mas também dessa profunda proximidade espiritual, humana e psicológica que é mais própria do vosso serviço.
Convido-vos, por último, a dedicardes especial atenção ao ministério dos Exercícios Espirituais, característico da vossa Companhia desde as suas origens. Os Exercícios são a fonte da vossa espiritualidade e a matriz das vossas Constituições, mas são também um dom que o Espírito do Senhor tem feito à Igreja inteira: por isso tendes que continuar fazendo dele uma ferramenta valiosa e eficaz para o crescimento espiritual das almas, para a sua iniciação na oração e na meditação neste mundo secularizado do qual Deus parece ausente. Precisamente na semana passada eu também, junto com meus mais estreitos colaboradores da Cúria Romana, desfrutei de uns Exercícios Espirituais dirigidos por um ilustre irmão vosso, o cardeal Albert Vanhoye. Em um tempo como o atual, no qual a confusão e a multiplicidade das mensagens e a rapidez de mudanças e situações dificultam de especial maneira os nossos contemporaneos, o trabalho de pôr ordem em sua vida e responder com determinação e alegria ao chamado que o Senhor dirige a cada um de nós, os Exercícios Espirituais constituem um caminho e um método particularmente valioso para procurar e encontrar Deus, em nós, em nosso redor e em todas as coisas, com o fim de conhecer sua vontade e de colocá-la em prática.
Neste espírito de obediência à vontade de Deus, a Jesus Cristo, que se converte também em obediência humilde à Igreja, convido-vos a prosseguir e a levar a bom fim os trabalhos da vossa Congregação, unindo-me a vós na oração que Santo Inácio nos ensinou no final de seus Exercícios; uma oração que sempre me parece muito elevada, até o ponto de quase não me atrever a rezá-la, e que, entretanto, sempre deveríamos retomar: Tomai, Senhor, e recebei toda a minha liberdade, a minha memória, a minha inteligência e toda a minha vontade, tudo que tenho e tudo o que possuo. Vós mo destes; a Vós, Senhor, o restituo. Tudo é vosso; de tudo disponde segundo a vossa vontade. Dai-me o vosso amor e a vossa graça que isso me basta [Exercícios Espirituais, 234].