
A Assembléia da CPAL de Manaus em 2008 será recordada como um marco importante no itinerário de nossa Conferência. Em 24 de setembro, os Provinciais que a integram optaram por ter três Teologados interprovinciais, localizados em Belo Horizonte, Bogotá e Santiago do Chile, para a formação de nossos estudantes nesta etapa na América Latina. Na mesma reunião resolveram também que este processo terá início em 2010. A carta do P. General de 15 de outubro, recentemente enviada a todos os Provinciais, confirma esta decisão e nos convida a assumi-la, passando a uma nova etapa: a concreção da opção.
Em sua carta, o P. Nicolás vincula esta decisão à próxima formulação do plano apostólico comum, outra opção feita em Manaus. Diz a carta do P. Geral: “a formação é a condição sine-qua-non para cumprir nossa missão. Por isso todas as Províncias e Regiões da CPAL devem fazer um planejamento a curto e a longo prazo, que inclua a formação como a primeira prioridade apostólica, especialmente no que se refere à destinação de pessoas”.
Portanto, o ano que vem estará dedicado a encaminhar a decisão tomada, definindo uma série de pontos colaterais: o programa para as novas casas de formação, o tipo de vínculo dos centros com a Conferência, os aspectos econômicos e financeiros, o modo como se irá preparando e destinando professores e formadores no futuro. Desse modo, a decisão coloca na agenda várias tarefas para diversas instâncias. Os coordenadores de formação das províncias, por exemplo, já se reuniram para começar a trabalhar o programa de formação e voltarão a fazê-lo o ano próximo com a participação dos reitores dos centros selecionados. Discutiu-se, além disso, o tema do financiamento dos centros na recente reunião de administradores provinciais, convocada pela CPAL e pelo Economato Geral. Tocou à Argentina, organizadora de ambas as reuniões, ser a sede dos primeiros passos desta nova etapa.
Convém recordar que se chegou a esta decisão depois de um longo percurso, mesmo que este não tenha sido tão conhecido em algumas províncias. Ao início do processo, no final da década passada, o tema se centrava em procurar a forma de resolver as dificuldades das províncias que não tinham um Teologado. Falava-se então de “privilegiar” alguns centros para a etapa de teologia. Algumas experiências nos ensinaram que isso não bastava e que era conveniente procurar uma fórmula em que todas as províncias pudessem ter voz ativa na elaboração de políticas de formação. Um passo importante foi o trabalho feito em 2005 por uma comissão de cinco jesuítas de diversas áreas da Companhia, para avaliar os centros existentes. Essa opção significou uma maior determinação de parte da Conferência. Mas o trabalho dessa comissão teve duas limitações significativas: centrou sua atenção só nos centros acadêmicos e, além disso, não em todos, limitando-se aos pertencentes à Companhia. Ao mesmo tempo foi tomando forma a necessidade de definir previamente o “aonde vou e para que”, quer dizer, os objetivos a alcançar com a “interprovincialização” [no caso de Belo Horizonte, que já era interprovincial, teríamos que falar de “internacionalização”] e os critérios que deveriam orientar a seleção a ser realizada.
Durante a última etapa, de 2006 até agora, a CPAL continuou avançando nessa direção, tomando várias decisões importantes: ratificou-se o desejo de ter centros interprovinciais para a formação [CIFs] dos nossos nas diversas etapas [seguindo assim os passos da Companhia universal], optou por começar com a etapa de teologia, solicitou à equipe central um rascunho sobre objetivos e critérios de seleção dos CIFs, que passou ao estudo das instâncias provinciais, pediu uma nova auto-avaliação dos sete centros de teologia [incluindo, portanto, os que não eram da Companhia] e constituiu uma nova comissão para realizar a hétero-avaliação correspondente. Em agosto do corrente ano, os Provinciais dispunham de todos os estudos solicitados para chegarem a uma decisão.
Um momento particularmente importante neste longo processo -e, desde logo, um de seus principais frutos- foi a elaboração de critérios comuns de formação em nível latino-americano, que devem ir-se concretizando em políticas orientadoras para a vida cotidiana de casas e de centros. Poderia parecer desnecessário, tendo documentos muito bem elaborados para cada etapa da formação, em nível universal e planos provinciais bem estruturados. Entretanto, essas orientações se aplicaram às vezes de modo tal que produzem situações e práticas contraditórias ou tão diferentes, que repercutem contra a própria formação. Por isso, o documento do Santo Domingo, que a carta de aprovação de 15 de outubro cita expressamente, é mais que um texto funcional em vistas a uma seleção; expressa a aposta por uma busca conjunta para onde queremos ir na formação de nossos jovens. Este é, na verdade, o salto qualitativo deste processo.
É este um momento oportuno para dar a conhecer o documento de Santo Domingo nas províncias. Deve acompanhar a comunicação da decisão do P. General, porque a situa em seu marco de compreensão, isto é, o desejo de recuperar para a formação a dimensão universal da missão, própria do carisma inaciano. Com palavras da Introdução: busca-se formar “jesuítas com um profundo e evidente sentido de corpo apostólico a serviço universal da Igreja e de um mundo cada vez mais globalizado e interdependente. Jesuítas que, contextualizados por amplos horizontes e movidos por grandes desejos, sejam capazes de responder, da perspectiva dos empobrecidos, aos urgentes e verdadeiros desafios da América Latina”. E continua: “Não se trata, portanto, só de diminuir centros ou de reunir escolásticos e formadores em menos lugares; aspiramos ao magis, quer dizer, a uma maior qualidade religiosa, humana e acadêmica e que fomente a dimensão universal de nossa vocação”.
O documento comunica também várias opções que, em reuniões seguintes, foram citadas como evidentes, embora em seu momento deram lugar a muita discussão. Por exemplo:
- Os Centros Interprovinciais de Formação serão parte do plano apostólico comum da CPAL e a eventual criação de novos centros de formação nas Províncias que compõem a CPAL deverá ser aprovada previamente no seio da Conferência por uma maioria qualificada.
- A seleção de centros interprovinciais implica no compromisso de enviar a eles estudantes, professores e formadores jesuítas, de acordo a um plano fruto de consenso e elaborado com suficiente antecipação.
- Salvo exceções, os jesuítas em formação deverão passar ao menos uma das etapas básicas de filosofia ou de teologia em algum dos centros interprovinciais e fora de suas províncias de origem.
Relendo estas e outras opções e ouvindo os companheiros em vários lugares caímos na conta da importância que esta XVII Assembléia significou para a Conferência, a magnitude do processo realizado e a importância das tarefas pendentes. Muitos estudantes expressam sua alegria ante a decisão tomada, ponto chave para o futuro, posto que, definitivamente, serão eles os que deverão assumi-la pessoalmente e concretizá-la coletivamente em cada centro. As comissões interprovinciais se oferecem para ajudar na concreção das tarefas, assumindo as falhas e limites que possa ter havido neste caminhar e somando-se ao espírito que o anima. Sinais todas que manifestam a consciência da necessidade de unir vontades e esforços em torno desta decisão.
“Procuramos servir os outros, pelo mundo afora, formando uma comunidade de escala mundial, e, simultaneamente, uma rede de comunidades locais. A nossa missão de fé e justiça e de diálogo de religiões e culturas, assumiu dimensões que já não permitem conceber o mundo como um conjunto de entidades separadas; temos que vê-lo como um todo unificado, no qual dependemos uns dos outros”. Devemos, portanto, “atuar como um corpo universal, com uma missão universal” [CG 35, d. 2, nº 20]. A isso se orienta a decisão de Manaus.

Ernesto Cavassa, S.J.
1º de novembro de 2008