OS JESUÍTAS E A EUCARISTIA
ARTIGOS - sexta-feira, 7 de abril de 2006 00:11 por Redação
Depois do Ano da Eucaristia e do Sínodo consagrado a este mistério da nossa fé, é oportuno recordar o que Inácio e os seus primeiros companheiros nos transmitiram como mensagem e como missão, vivendo deste «grandíssimo sinal do seu amor» [EE 289]. Apesar das incompreensões e resistências do que se apresentava como uma perigosa novidade, Inácio e os seus companheiros promoveram a comunhão freqüente e mesmo diária. Baseando se na experiência eclesial da primeira comunidade de Jerusalém, estavam convencidos que não receber o pão quotidiano da mão de Deus era um sinal tangível de enfraquecimento da fé. Para eles, a finalidade da comunhão freqüente não era de maneira alguma uma simples multiplicação quantitativa, mas, como as «repetições» nos Exercícios Espirituais, um aprofundamento e personalização crescente. Pedro Fabro exprime bem o seu sentido. A 29 de Agosto de 1542 escreve: «Nosso Senhor quer entrar em nós e levar nos à conversão do coração a fim de que, ao segui lo, entremos cada dia mais no mais profundo e íntimo das nossas almas». A participação freqüente de Cristo deve renovar em nós «o próprio ser, a vida e a atividade, para que a minha maneira de ser com Ele e com os demais seja nova, nova também a minha maneira de viver, nova a minha maneira de comportar me em todas as ações. Assim, cada dia, Ele me irá mudando para melhor» [03.10.1542]. Fabro sublinha assim claramente o sentido apostólico da comunhão diária: «Se Cristo se me comunica cada dia quando celebro, se está disposto a comunicar se me de todas as maneiras, nas orações e nas obras feitas por Ele, também eu devo comunicar me e entregar me a Ele de todas as maneiras e não somente a Ele mas a todos por Ele, bons e maus, conversando, pregando e fazendo o bem, trabalhando e sacrificando me por eles, abrindo me totalmente a todos para consolá los na medida em que os possa ajudar e dando a todos quanto sou e quanto tenho” [14.02.1543].
Acolher cada dia o dom de Cristo
Esta confissão de Pedro Fabro, que nos diz como a Eucaristia diária é a fonte da nossa vocação e missão, não perdeu de modo algum a sua atualidade. A Congregação Geral 32 prescreveu a participação na Eucaristia todos os dias, mas este sacramento do mais puro amor não deveria ter necessidade de prescrição nem de obrigação, porque se trata de uma expressão de amor, primeira característica da nossa vida como companheiros de Jesus. As Normas Complementares recordam isto mesmo: «Todas as comunidades da Companhia são comunidades de fé, as quais se reúnem com outros crentes para celebrar a fé comum na Eucaristia. A participação na mesma mesa do Corpo e Sangue de Cristo é o meio ótimo para formar um só corpo dedicado à missão de Cristo no mundo de hoje. Portanto, todos [...] participem na celebração quotidiana da Eucaristia, e tenham na como o centro da sua vida religiosa e apostólica» [NC 227]. Se um jesuíta descuida habitualmente a Eucaristia ou não vê o sentido espiritual que tem organizar o seu horário para que Deus no seu amor seja o primeiro a ser servido, esse jesuíta e os seus superiores deveriam questionar se sobre a autenticidade da sua vida como companheiro de Jesus, ou seja, de alguém que, segundo a etimologia da palavra, «partilha o pão» com o seu Senhor, e tirar as conseqüências práticas, mesmo que sejam penosas. Corresponde aos superiores velar para que a celebração eucarística esteja assegurada todos os dias, particularmente para os não sacerdotes. Cabe a cada um de nós estarmos atentos para que não se trate de uma formalidade ritual ou cultual rotineira, mas sim da recepção da vida de Cristo, que, como escreve Pedro Fabro, «me encerra totalmente dentro de mim mesmo, a fim de que eu habite com Ele e trabalhe com Ele...» [03.10.1542].
Deixar se ajudar pelas coisas e pelos ritos
Na celebração eucarística, Inácio e os seus primeiros companheiros acreditavam profundamente que este «grandíssimo sinal do seu amor» [EE 289] compromete a pessoa toda, corpo e alma. A espiritualidade encarnada de Inácio, nos Exercícios Espirituais, já dá toda a sua importância à atitude do corpo, ao alimento e ao clima, assim como à respiração e à imaginação, para chegar à união com o Senhor na contemplação. Nada surpreende, portanto, se a verdadeira mística eucarística de Inácio, revelada no seu diário espiritual, se apóia no mundo material da Igreja: os ritos e os gestos, as palavras e os objetos litúrgicos. Sem se mostrar ritualista nem formalista, Inácio toma cada dia o cálice do Senhor, que lhe dá a força de amar e servir em todas as coisas, aproveitando o calendário litúrgico e as rubricas da Igreja. Tanto o «Memorial» de Fabro como o diário espiritual de Inácio nos convidam a não descuidar, muito menos a menosprezar, quanto contribua material e humildemente à arte de celebrar a Eucaristia «digne, attente et devote» em vista da união pessoal e viva, no movimento do Senhor dar a sua vida pela multidão.
A Eucaristia e a vida comunitária
A linguagem simbólica da Eucaristia não é, de modo algum, uma ação privada, e ninguém pode considerar se dono da liturgia da Igreja. A Igreja do Concílio Vaticano II sublinhou o seu caráter fundamentalmente comunitário, a sua autêntica comunhão no Espírito Santo com o projeto do Senhor. A Igreja é quem celebra a Eucaristia, e esta é, por assim dizer, a respiração da comunidade. Levadas por este movimento eclesial, as nossas comunidades sentem a necessidade de exprimir se numa oração comum e de se entregarem à liturgia eucarística para existirem plenamente. A vida comunitária tem necessidade de ser sustentada por este alimento sob pena de tornar se rapidamente anêmica. Somente assim, poderão as nossas comunidades, muitas vezes marcadas por uma desconcertante diversidade de caracteres e procedências, num mundo dilacerado por ódios e divisões, testemunhar que o que é impossível aos homens se torna possível celebrando o memorial de Jesus e participando na fundação constantemente renovada da Igreja.
A Companhia, corpo de oração eucarística
Como a Companhia não foi instituída por meios humanos, também por eles não se pode manter nem desenvolver [Const. 812]. Portanto, é necessário que a Companhia seja um corpo orante, e muito particularmente de oração eucarística. De fato, as Constituições mobilizam todos os companheiros a que celebrem ou ofereçam a Eucaristia: os Superiores pela sua Comunidade [Const. 790], os Reitores pelo seu Colégio [424], os Assistentes por sua Assistência [803], os Companheiros pelo seu Superior [631], todos pelos seus Irmãos defuntos [598] e pelos seus Benfeitores [310]. E nas grandes ocasiões, como é a convocação de uma Congregação Geral, todo o corpo da Companhia se reúne em celebração eucarística para que nos assuntos que nela se tratarem «tudo corra como convém para seu maior serviço, louvor e glória» [693]. Quando um cardeal romano, o Cardeal Guidiccioni, contrário à fundação de qualquer novo instituto religioso, se opõe à aprovação pontifícia da nascente Companhia, Francisco Xavier participa, desde a sua partida de Roma até à sua chegada à Índia, na celebração de toda uma série de missas pela conversão do Cardeal [cartas de 18.03.1541 e de 15.01.1544]. Inácio, por sua vez, nos recorda que de tudo o que pode ser feito para conservar o impulso apostólico da Companhia e para manter o seu crescimento, o que é «mais importante» é «uma oração assídua e cheia de desejos», uma oração eucarística [Const. 790].
Peter-Hans Kolvenbach, S.J. – Superior Geral dos Jesuítas
Roma, 15 de Fevereiro de 2006, Memória de S. Cláudio La Colombière